É um pouco engraçada a forma como O Morro dos Ventos Uivantes, de Emerald Fennell, tem sido recebido pelo público. Pessoalmente, não conheço ninguém que tenha amado, já os que odiaram são vários. Muitas pessoas e muitos motivos – alguns bem iguais, outros bem diferentes – mas em suma todos têm algo a dizer sobre, essencialmente, o filme ser uma péssima adaptação. Um dos comentários que mais chamou minha atenção foi o de alguém dizer que, enquanto assistia, sentia como se estivesse no TikTok vendo um edit, e que cada cena parecia construída justamente para isso: ser um edit.
O sentido plástico de um filme hoje em dia depende muito do modo como ele será visto pelas pessoas. Não estou dizendo que Fennell criou todo o aspecto visual baseando-se na premissa de ecoar pelos algoritmos e pelos vídeos curtos, aqueles cheios de drama e emoção, com algum phonk, música estridente ou épica, tipo “Skyfall”, de Adele. Mas seria ingenuidade pura pensar que nenhum outro diretor/estúdio, ou a própria Hollywood inteira hoje, não tenha esse mesmo tipo de intenção. Na verdade, nem só Hollywood, pois eu poderia argumentar fielmente que Valor Sentimental, de Joachim Trier, opera nessa mesma lógica.
Acontece que O Morro dos Ventos Uivantes, sendo um edit ou não, consegue trazer um clássico da literatura para esse contexto que todos têm buscado atingir. O primeiro passo é não tentar enxergar o filme e o livro como sendo o espelho um do outro, não são. É tosco ter que repetir isso toda vez que surge algum filme baseado em livros, como se as pessoas, os fãs principalmente, fossem incapazes de entender que uma linguagem não depende da outra, que o cinema e a literatura são artes diferentes e que o cinema é passível de mudanças, seja para contar ou recontar uma história.
A história recontada por Fennell aqui tem aquele impacto forçado que ela sempre busca, de alguma forma, impor. Como se quisesse em alguns instantes chocar forçadamente o espectador com alguma cena ou diálogo bobo, para dizer o mínimo. Sinto que, apesar disso, o sentido buscado por ela de gerar impacto aqui, como nas cenas em que explora códigos de fetiche e o faz com uma dinâmica que, para uns, beira o absurdo, ainda funciona. É chocante que isso possa… chocar. Em momentos como este, nota-se o quase desprezo dela pelo que o clássico de Emily Brontë busca traçar dentro e fora de seu contexto artístico, das palavras.
Na verdade, acho corajosa a forma como ela faz isso. A montagem parece querer o tempo inteiro nos mostrar que o que estamos vendo é uma leitura centrada em dinâmicas contemporâneas do cinema e da própria relação entre Heathcliff (Jacob Elordi) e Catherine (Margot Robbie). É trágico, como deveria ser, mas acerta em cheio ao fazer dessa tragicidade um verdadeiro carnaval de cortes e ângulos que remetem a videoclipes de diva pop.
Não posso enxergar isso como não sendo um acerto, porque soa tão plástico e artificial que exprime as emoções em seu limite máximo. Os diálogos são quase externos à tela, com os personagens literalmente jogando tópicas resumidas em extremos parênteses e aspas do livro, buscando causar algo. E, apesar dos pesares, causa. É como se Emerald Fennell tentasse, e viesse tentando desde muito tempo, atingir esse estado de impacto e finalmente conseguisse aqui, sobretudo porque ela compreende que: 1) esta é a história para causar, pois jamais seria aceito de bom grado perturbar sua posição canônica na literatura; e 2) sua direção e ideias bobas, que vêm desde sei lá quando, poderiam finalmente se beneficiar disso e realmente causar algum sentimento, ou mesmo a ausência dele.

