Digger (2026)

Avaliação: 4 de 5.

No teatro do absurdo, o centro do palco é a humanidade e sua necessidade pelo caos absoluto. ‘Digger’ é um manifesto político de 2 horas que parece trabalhar a obviedade de uma maneira escrachada, mas que também possui sua profundidade. Iñárritu e sua maneira de fazer filmes são tão necessárias para o cinema atual que chega a ser irônico o quanto a crítica parece pronta para amar ou odiar seus trabalhos mais recentes. A autocrítica se faz presente, e isso é o que torna a mensagem do filme tão eficaz para mim.

Nesse mundo pitoresco e absurdamente pálido, o personagem de Tom Cruise (Digger) é o representante total de um conglomerado industrial e tem, basicamente, o poder de modificar o mundo em suas mãos. O que há de mais rico em um personagem magnata e frio é a essência cômica que consegue transformar tudo isso em uma sátira bem elaborada, impulsionada por uma atuação de Tom que, às vezes, passa do ponto, mas é sempre bem sentida. É perceptível em tela o quanto ele se esforça para mostrar as nuances do personagem e, quando há uma certa quebra da quarta parede em determinado momento do filme, tudo isso ganha uma camada ainda mais letal para a narrativa. Toda a superficialidade e a crueldade absurda representadas em tela são tidas como um grande deboche, e é nesse deboche que mora o grande ouro das falas do filme. Tanto que, confesso, foi após a metade do filme que de fato me tornei engajado na história. A sucessão de acontecimentos é tão deliciosamente insana que não te faz querer desgrudar os olhos da tela. É a realidade pura, representada com pitadas de diálogos ácidos, algumas vezes bobos e, em outras, totalmente brilhantes.

A força desse longa também é sua fraqueza, é claro. A franqueza dos fatos nem sempre soa de forma interessante. Por mais que as mensagens políticas sejam mais claras que a água, isso não significa que todas soem tão bem quanto tentam soar. Nesse momento, acho que fica meio insólido, mas há quem também acredite que o absurdismo precisa ser representado em sua inteireza para mostrar o quão vil pode ser a capacidade humana de exterminar.

É preciso olhar para além do que é retratado para também enxergar a beleza de tudo isso e o quanto pode ser eficaz fazer um filme sobre a escória política internacional. Há um poder midiático em tudo isso que parece afetar quem está disposto a ouvir, mas há quem possa dizer que tudo isso funcione como uma faca de dois gumes e que só acerte a mente e o coração de quem já se encontra em um caminho determinado. Resumindo, se você procura ser apolítico com esse cineasta mexicano e esse ator norte-americano cientologista, pode esquecer, não vai conseguir.


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