Locarno 2026 – Manhunt & D’ici là

A duração de quase três horas de Manhunt poderia facilmente passar por uma jornada através de ideias e convenções de gênero, como o true crime e o road movie, simplesmente atrelada à evolução moderna desses estilos ao longo dos anos. Na verdade, o filme até faz isso, mas vai além de um mero exercício estilístico. Há aqui uma constante criação de elementos que vão, aos poucos, dando um tom cada vez mais pesado ao drama de dois jovens que resolvem abandonar suas vidas e embarcar numa viagem de carro pelo norte do Canadá.

O estilo rebelde e a criação de um ideal de liberdade que esbarra em aspectos comportamentais de grande parte dos jovens hoje em dia, que crescem em ambientes online tendo contato com ideais reacionários dado o deslocamento dos papeis de gênero da atualidade, fomentam uma aproximação com o neofascismo. O filme é inspirado nos assassinatos de 2019 no norte da Colúmbia Britânica, e o nome vem do jogo eletrônico de terror psicológico e estilo stealth desenvolvido pela Rockstar Games e lançado em 2003.

E é justamente o comportamento deles que se transforma em um dos elementos que guiam a criação de diálogos e cenas específicas que beiram o absurdo. Pode haver uma intencionalidade por parte do diretor em fazer com que esses momentos sirvam de antítese a um suposto endosso, coisa que muitos filmes que trazem a masculinidade por meio desses artifícios de liberdade plena costumam fazer. Ainda assim, como metalinguagem, cabe cautela ao trazer essas perspectivas.

Wayne Wapeemukwa desconhece cautela. Ele pinta o ápice dessa descoberta de poder falocêntrico dos garotos, que empunhando armas conseguem tudo, com um trabalho colorido, com esquema de cores em contrastes numa paisagem desolada por incêndios. O plano de fundo é hostil, assim como essa aventura se torna, e talvez a falta de cautela nesse sentido seja um excelente meio de apontar o quão violento e o quão apocalíptico tem se tornado o mundo, com meninos que cada vez mais viram homens confusos com os seus próprios papeis na sociedade.

“Quando você cresce em um lugar, absorve sua essência, e esses sentimentos ficam dentro de você onde quer que vá. D’ici là captura o espírito daquele lugar que vive dentro de mim.”, comenta Sarah Leonor sobre seu novo filme, D’ici là. O longa acompanha três personagens que vivem de formas diferentes os encantos de um vale nos Vosges, uma cadeia de montanhas no leste da França e que faz divisa com a Alemanha.

A diretora, que viveu ali, retorna para não apenas usar o lugar de pano de fundo, mas para homenageá-lo e tecer sobretudo sua visão autoral de um território que é, por si só, um também personagem. A diretora há muito é conhecida por documentar a natureza, com certa expertise em capturar ambientes e paisagens. Seu olhar documental converge com a narrativa, e instantes de contemplação, com ângulos silenciosos focando nas árvores e na amplitude dos Vosges que se misturam com as formalidades do drama.

O primeiro personagem, Lucien, um homem de meia-idade, busca o isolamento. Sarah Leonor então parece não se esforçar para registrar isso ao filmá-lo sem fazer nada por longos minutos. Ele arruma algo aqui, vai de lá pra cá, conversa com sua parceira, mas nada o suficiente para descarregar um acontecimento que mude o que ele, no meio de um campo ou dentro da floresta, está a fazer. Aline, por sua vez, parece assombrada, um medo, um frio na barriga acompanha ela durante sua ida ao médico ou rastreando um lobo no meio do mato, que acena ao antropozoomorfismo em dado momento.

Já a jovem Jade, uma garota negra que explora sua juventude por entre as árvores e as colinas em Vosges, enfrenta questões que todo jovem enfrenta. A diferença, é que ela soa distante a cada nova interação, seja com o par romântico ou com sua mãe. Ela sofre com o que todos jovens sofrem: a busca por uma identidade formadora pré-vida adulta, e seu espírito também flerta com a animalidade, e sua presença, também vagante, é explorada ao ar livre, como se a diretora prescrevesse a liberdade e, ao mesmo tempo, a solidão.

Eles dividem o mesmo território, mas suas jornadas são compostas por diferentes caminhos, que outrora se cruzam. O filme se arrasta por uma estrutura que se divide em blocos e, por isso, consegue contemplar todos sob um mesmo prisma. É lento, mas muito lindo, com instantes impressionantes de beleza natural. Em tempos de filmes fechados e com o fundo desfocado, assistir algo assim é de se emocionar.


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