Locarno 2026 – Los Días Libres & As Light as Air

Escrito e dirigido por Lucila Mariani, Los Días Libres acompanha uma garota de doze anos, Bego, que durante suas férias resolve encontrar meios de definir seu lugar na sua família. O período coincide com um eclipse solar, que dá recheio ao seu encontro com a amiga virtual REN__, que resolve ajudá-lá a descobrir meios não muito comuns de alcançar seus objetivos.

Nota–se, por isso, que Mariani se preocupa bastante com a forma como vai fisgar as relações familiares ao mesmo tempo que dá contorno a busca de Bego com ares de fantasia, como se representasse através elementos como a conversa virtual dela com sua amiga e vídeos explicativos, entre outros, uma expansão da dinâmica de relações, que mostra-se aos poucos opaca, congelada.

São vários os instantes em que a câmera parece inexistir diante do ócio de Bego, ou mesmo quando a garota, quase sempre retraída, interage com suas colegas e seus pais. Esse meio de evitar marcar espaço, faz com que o filme assuma uma atmosfera realista que entra em choque com suas ideias quase místicas, com momentos que reduzem as emoções ao poder da lua, por exemplo.

É algo que funciona muito bem, vez que o longa trabalha essa atmosfera conforme vai dando sinais da transformação que Bego buscou fazer, como quem passa a noite ouvindo o mantra que aciona o arquétipo da Cleópatra. O filme não vai nessa direção, mas a forma como Bego trata da sua própria solidão faz-nos remeter da forma como nós muitas vezes acreditamos nessas coisas como a última salvação de nossas frustrações.

Por isso, o filme caminha pelo vale do existencialismo menos como provocação, e mais como contestação do próprio desejo de se inserir, de fazer parte de algo que em tese já nos inserimos ao nascer. É estranho por isso ver uma garota lutar para fazer parte da própria família, e o desejo neste caso corresponde unicamente à convenção social que, também, é nos imposta. E tratar isso com frieza, é o torna a lentidão e a sonolência dos ângulos calmos, silenciosos, de Lucila Mariani parte da contestação.

Se partimos do pressuposto essencial de que as imagens, como linguagem, conseguem contar histórias através de estruturas e colocações estéticas, visuais e temáticas – por vezes submetida aos estilos e gêneros que entrelaçam a imagem –, chegaremos a filmes como As Light as Air plenamente acionados por características que se voltam unicamente às imagens como meio direto pelo qual a narrativa se condiciona.

Por isso o diretor Umair Bilal vê nas imagens, e em momentos mais específicos a fotografia, fotos mesmo, um meio de expor suas ideias sobre seu entorno. Mais do que isso, o longa de estreia do diretor vê com certa liberdade questões que perpassam o religioso, vez que acompanha uma manifestação cultural cultivada em Sehwan em Sindh, no Paquistão, com um olhar que passa longe de remeter – mesmo que tenha ângulos muito próximos – aos documentários tradicionais; pelo contrário: submerge em contemplação.

Para tanto, Umair Bilal acompanha peregrinos e moradores locais durante um raro momento de expressão coletiva, capturando a dinâmica interna de rituais que constituem o alicerce existencial daquela comunidade. A experiência é quase sinestésica, sobretudo na forma como ele capta o som, com suas poderosas explosões de percussão impulsionadas pelo dhamal (que ganha destaque na parte final).

O diretor enquadra toda a jornada, registrando o início e o fim das celebrações com uma intimidade que nos faz sentir como se estivéssemos ali com eles, especialmente no clímax, quando os participantes entram em um estado de transe e a interação entre imagem e som se torna ainda mais refinada. São deslumbrantes os aspectos técnicos que favorecem a abordagem do filme em se inserir num contexto e nos trazer o máximo dele, sem personagens, sem falas, sem roteiro formal, apenas o interesse genuíno.


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