Possivelmente a maior surpresa no cinema em 2026 é o sucesso repentino que Obsessão obteve ao estrear nos cinemas, depois de uma recepção já muito acalorada, apesar contida em seu nicho, no festival de Toronto ano passado. O amor quase unânime recebido pelo filme é incomum não apenas pelo seu gênero, que tende a ser mais divisivo do que os demais, mas porque não existe uma grande reinvenção dentro de sua forma. Na verdade, segue uma tendência muito forte popularizada como “estética A24”: filmes extremamente comerciais, mas encapuzados com uma encenação que, em teoria, é de maior prestígio do que o terror tradicional, mais atmosférica e com uma violência não menos extrema do que no horror tradicional, mas mais pontual e racional (com causa e consequência expostas durante o filme e não no clímax, ao fim.)
O que há de impressionante aqui talvez seja o ótimo equilíbrio do estilo contemporâneo com uma forma mais tradicional de se contar uma história. Junto com a crescente desse “terror psicológico”, o espaço para o humor diminui. Não necessariamente um humor cômico, que te faça gargalhar enquanto assiste, mas um gerado pelo próprio absurdo ou pela própria aflição quando a apresentação é mais leve e menos presa a uma atmosfera frágil que a maioria dos filmes atuais parece ter. A sensação é de que sempre existe um medo de ter seu filme ridicularizado por não ser “sério” o suficiente, mas o que tornou o gênero horror popular é justamente essa sensação simultânea de alívio e tensão que o absurdo gera e Obsessão está incrivelmente ciente disso.
Parte desse pensamento também vem da noção de que o roteiro é a parte mais importante de uma produção audiovisual, e que ele sozinho deve segurar a atmosfera sombria, enquanto a linguagem visual é preenchida por planos escuros sem o mínimo de assombração neles. Talvez pelo orçamento pequeno (menos de um milhão de dólares), o uso do espaço é muito inteligente. Quase tudo acontece dentro de 4 paredes e assim a sensação de prisão é construída não só pelo tema, mas também pela encenação, tudo que é apresentado é sufocante e não só a história. Ao mesmo tempo, isso poderia ser um grande tiro no próprio pé porque, com uma câmera quase estática e uma ambientação simples, muito precisa ser dito, mas o caminho que Baker toma para escrever os diálogos é muito natural, mesmo que sejam longos, nunca são cansativos ou expositivos. Tudo é muito orgânico e tudo soa genuíno, existe muito pensamento, inclusive, no momento em que cada informação é apresentada e é seguida uma progressão natural tanto da história quanto da tensão.
Ao mesmo tempo, essa dependência da palavra exige muito mais dos atores. O exemplo mais óbvio é como toda a oscilação do filme — responsável por grande parte do absurdismo — simplesmente não aconteceria sem a personagem de Inde Navarrette. A atriz, na verdade, segura muita coisa sozinha. Pelo menos 50% do todo desabaria se ela não tivesse uma interpretação tão potente e abrasiva, e o longa depende muito do estado emocional de sua personagem, que define o tom de todas as cenas, inclusive as que ela não está presente. Isso tudo é um peso enorme para um artista e Navarrette consegue sustentar sem problema algum. Sem dúvidas um dos aspectos mais instigantes do filme é assistir ele progredindo ao redor dela e de sua potência em uma personagem construída nas sombras, praticamente sem um rosto.
Paralelamente, essa dependência causa certos vícios estéticos que são um tanto incômodos. Por incrível que pareça, esses vícios parecem estar contra a cultura e a habitualidade dos filmes dos últimos anos e seus excessos de primeiros planos. Não acho que seja necessariamente algo ruim (filmes que adoro, como Marty Supreme, abusam do primeiro plano e não são prejudicados por isso), mas diversas vezes deixam uma sensação de preguiça e desleixo, quase como se o cineasta não quisesse compor planos mais abertos e focasse apenas no rosto dos atores ou em objetos pontuais. Baker, no entanto, usa muito do espaço para construir sua atmosfera, mas de certa forma parece ter medo de mover a câmera e quebrar esse feitiço. O efeito é quase o contrário: diversas cenas se sairiam melhor com uma filmagem mais livre — principalmente para um filme simples, o movimento da câmera teria o poder de intensificar a agressividade da imagem. Dessa forma, estática e simétrica, o filme fica rígido e formal, é uma misé-en-scene que traz seriedade quando todo o resto busca pela insanidade. Mesmo assim, é um trabalho de direção bom e bem intencionado para alguém no segundo longa.

