Devoradores de Estrelas (2026)

Avaliação: 3.5 de 5.

Se Devoradores de Estrelas, de Phil Lord e Christopher Miller, tivesse que ser descrito em uma só palavra, eu sugeriria “surpreendente”, pois veja, quando Grace acorda sozinho numa espaçonave anos luz longe da terra, ele, assim como nós, não faz ideia de como chegou nessa situação. Durante uma parte do filme, a câmera filma com certa curiosidade que, sozinha, já seria instigante o suficiente para sustentar o filme por toda essa seção (por falta de palavra melhor:) didática da história. Não só isso, mas a linguagem visual como um todo é extremamente marcante — um destaque especial vai para a construção dos dois personagens humanos mais importantes para a trama: Grace, interpretado por Ryan Gosling, e Eva, interpretada por Sandra Hüller (ambos ótimos em seus papéis). As roupas vibrantes e chamativas de um sempre contrastam com as linhas retas sóbrias da outra.

E, diferente da maioria dos filmes de ação, que usam o som e a trilha para intensificar os momentos de tensão, Devoradores de Estrelas os constrói a partir do puro silêncio. É uma valorização da imagem difícil de se ver em novos blockbusters de Hollywood, e por isso consegue de forma muito eficaz entrelaçar as cenas do passado, na terra, com as do presente, na nave Hail Mary. Entremear as épocas faz com que tudo flua de forma muito mais orgânica e, de um ponto de vista narrativo, faz com que a evolução do que Grace pensa sobre sua vida (ou a ausência dela) seja muito mais aparente. Para isso também, o filme utiliza dois personagens de apoio; na Terra, Eva é a constante lembrança da morte, quase como uma personificação, ao mesmo tempo que evidencia um nível de egoísmo no personagem. Já na nave, o alienígena Rocky que se muda para dentro da Hail Mary é quase como uma luz no túnel que faz Grace entender o poder desse sacrifício. A sobreposição dessas narrativas é o que dá o dinamismo que o filme precisa para não ser desinteressante.

Com isso, por mais bem humorado e engraçado que o longa seja, ao discutir a linha tênue entre a vida e o sacrifício, é óbvio que momentos emotivos iriam surgir. Infelizmente, o filme tem certa dificuldade em dialogar com eles. Talvez pela forma da câmera se manter inalterada durante essas cenas mais carregadas, o poder delas seja diluído na mesma fórmula das cenas leves. Mas, sendo sincero, é uma grande surpresa só ter isso de negativo para dizer do filme. Extremamente competente, que poderia se beneficiar empoderando a tristeza tanto quanto a adrenalina.


VEJA TAMBÉM