Aftersun

Avaliação: 3.5 de 5.

É possível que não exista nada mais difícil de lidar do que a memória. A sensação de impotência ao olhar para trás e ver os rastros das nossas ações pode ser desconcertante, ainda mais quando decidimos enfrentar algum ressentimento do passado. Em “Still Processing”, curta de Sophy Romvari, uma frase se destaca ao longo de seus dezessete minutos de duração. Ao relembrar dos seus falecidos irmãos, Romvari diz: “Eu gostaria de não ter passado tanto tempo da sua vida com raiva de você”. Talvez seja isso que Charlotte Wells tenha tentado dizer com “Aftersun”, seu longa de estreia. Ao perceber que todos os sinais apontavam para a mesma coisa, não existe nada mais inquietante que perceber que talvez tudo pudesse ter sido diferente. Wells lida com o controle da sua narrativa de uma maneira ambígua, mas sem nunca perder o tom trivial do filme. As pequenas ações falam mais alto do que qualquer palavra. Ao invés de dissecar sua história de uma maneira direta e óbvia, Wells prefere deixar espaço para a dúvida. 

“Aftersun” é um tipo de encontro de Wells com o passado, onde ela reconstrói as memórias que tem de seu pai com uma certa melancolia, como se aquilo mostrado ao longo do filme fosse tudo que tivesse sobrado dele. Misturando gravações pessoais com a reconstrução das mesmas, Wells nunca deixa completamente explícito o que é real ou ficção na sua história, mas é isso que torna o desenrolar tão interessante. A viagem de Sophie (Frankie Corio) com seu pai Calum (Paul Mescal) funciona como um aguardado reencontro entre os dois. Sophie, que vive com sua mãe, usa de um feriado em um resort para se reaproximar de seu pai, que embora atencioso, parece ter um bloqueio quando se trata de relações interpessoais. Nós acompanhamos o filme pelo ponto de vista de Sophie, portanto também vemos ela lidando com questões que fazem parte do amadurecimento de qualquer menina da sua faixa etária. As cenas onde Wells explora a sua relação com os meninos da mesma idade podem se tornar repetitivas e um tanto insípidas, mas servem como um tipo de aprofundamento da relação da personagem com o mundo ao seu redor. Mas o que realmente torna “Aftersun” algo acima da média é a maneira com que Wells lida com tudo o que não é dito.

As camadas mais complexas e interessantes de “Aftersun” são aquelas encontradas nas entrelinhas da história. Wells é discreta quando se trata de nos mostrar a verdade por trás de tudo aquilo que estamos presenciando. Nada é completamente dito pelos personagens, que usam dos mais singelos atos de comunicação para expor as verdades mais angustiantes possíveis. A maneira com que o filme lida com a depressão é extremamente delicada e compreensível. Ela entende que depressão não é só quando decidimos pôr para fora o que sentimos, mas também quando optamos por deixar tudo aquilo escondido. As pistas que a diretora deixa pelo caminho funcionam como uma forma de presságio para o que vai acontecer com os seus personagens, mas saber disso não torna a conclusão da história algo mais fácil. 

Embora a discrição do filme seja algo majoritariamente positivo, às vezes sua simplicidade pode tornar a história em algo um pouco vago. Não que isso seja um grande problema ou torne o filme em algo completamente vazio, mas tanta ambiguidade pode funcionar como uma maneira de não ter que tomar uma posição mais firme com os temas abordados. Só Wells sabe o que realmente aconteceu entre ela e seu pai, mas fazer com que grande parte da história seja aberta para interpretação torna a sua reconstrução algo opaco. É uma posição confortável e imatura que a diretora toma e que faz com que muitos dos momentos mostrados ao longo do filme se tornem uma representação fria e distante de uma realidade desconhecida pelo espectador.

Toda essa continência também respinga na interpretação dos atores principais do filme, que lidam com os seus personagens de uma maneira honesta e pouco chamativa. Em muitos momentos do filme é como se eles não estivessem atuando, mas isso não significa que suas interpretações sejam menos significativas. Corie carrega toda a leveza de uma menina da sua idade, mas sem nunca parecer ingênua ou alheia às situações ao seu redor, pelo contrário, ela faz com que Sophie seja muito mais esperta e observadora do que inicialmente aparenta ser. Mescal consegue intercalar bem os momentos em que o personagem está cheio de vida com os momentos em que ele deixa transparecer todo o fardo que carrega dentro de si. O que torna as interpretações de ambos atores algo fascinante é a maneira com que eles se comunicam entre si. A relação de pai e filha só funciona tão bem porque eles conseguem fazer com que todos os sentimentos e segredos que eles dividem sejam demonstrações completamente genuínas de compreensão. 

E talvez “compreensão” seja a palavra que defina “Aftersun”. Para compreender algo é necessário aceitar aquilo que estamos presenciando, e o processo de aceitar nada mais é que a demonstração mais pura de amor que alguém pode ter. Aceitar é se adaptar a uma situação de maneira completa, com todos os altos e baixos que acompanham essa decisão. Mesmo que a aceitação venha de maneira obrigatória, nada muda o fato de que você está processando tudo da melhor maneira que pode.


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