Filmar o poder de um homem – seja este o fantasioso de um super-herói ou o que se ampara na realidade de um ricaço – é sempre uma forma de tematizar socialmente o quão dispostos eles estão a firmar suas colunas no domínio, na obsessão e no jogo de tabuleiro de suas vidas, que envolve sobretudo um sadismo, uma necessidade de nunca sair por baixo, mesmo quando os vilões se confundem com mocinhos, e vice-versa. Em The Birthday Party, Miguel Ángel Jiménez faz exatamente isso: dá palco para que um homem exponha seu poder da forma mais maliciosa possível. Quem veste esse homem, chamado Marcos Timoleon, é Willem Dafoe, que não economiza nas expressões e na excentricidade personalista que seu papel exige para colocar seus planos de domínio em ação.
Neste sentido, a direção assume os riscos de se aproximar do material de origem – o romance homônimo de 2007 de Panos Karnezis – e paira lentamente, sem nenhuma pressa, sobre diálogos desenxabidos e situações que se tornam cada vez mais questionáveis, ainda mais quando envolvem a filha de Marcos Timoleon, Sofia (Vic Carmen Sonne). Essa aproximação é, talvez, a chave do filme, pois considera a adaptação e toda a tradição de manter fieis os textos, algo que dispensa a literalidade, e isso é nítido pelo próprio tom que a direção busca impor. É como se, ali, surgisse uma narrativa que não está disposta a corresponder ao que sabemos previamente, e sim usar do que foi estabelecido para agir arbitrariamente numa nova composição de fatos.
É por isso que, a todo instante, há a sensação de que algo está em curso, de que algo irá acontecer e destrambelhar esses mesmos diálogos. Pois como um filme, a obra precisa se desmembrar com base numa justaposição de eventos que sejam capazes de gerar uma certa imprevisibilidade. E, de fato, isso acontece. A festa para Sofia, regada a pessoas ricas e fúteis, é a culminação de tudo isso: do poder de um homem, dos interesses que o circundam, e da maneira como ele busca dominar as situações sem jamais abandonar seu propósito de controle absoluto, de vencer o jogo, custe o que custar. E longa não hesita em munir o personagem desses traços proto-diabólicos, aliás, o faz com rigor e academicismo, pois lhe é cobrada uma posição, e é isso que o diretor entrega.

Diferente de muitos documentários por aí, a raiz de With Hasan in Gaza sequer se baseia na exposição quase jornalística de uma questão que a obra busca abordar com certo ar de denúncia ou coisa do tipo. Ainda que o faça – pois trata-se, sobretudo, de uma filmagem que cerca o contexto palestino durante, antes e depois das violações do Estado de Israel –, há aqui pouco interesse por um confronto direto. Não que ele não exista, já que as cenas de calmaria, com diálogos comuns do cotidiano, crianças se divertindo nas praias e tudo isso já denotam um viés de queixa. Afinal, hoje, em Gaza, não há mais calmaria, não há diálogos que instiguem normalidade e muito menos há crianças se divertindo.
É nesse ponto que With Hasan in Gaza se torna devastador: no contraste entre o que as fitas aqui expõem de anos atrás – uma convivência, ainda que dura, dentro de um ecossistema humano que hoje está destruído. São vários os momentos em que a câmera captura como as pessoas, em vez de viverem, buscavam sobreviver, mesmo diante das violações. Esse é outro tipo de contraste, o da sobrevivência. Em Gaza, hoje, não há como resistir, sobreviver, e a todo instante somos lembrados disso; a todo instante somos tocados, despertados, atravessados pela noção de que o que estamos assistindo sequer se aproxima, em algum nível de aceitabilidade, do que há atualmente lá, naquele mesmo lugar.
Despertar isso – esses contrastes – é o que faz de With Hasan in Gaza um filme angustiante, mas puramente sensível e necessário. Não do ponto de vista de haver algo utilitário aqui. Note que, se tirado de seu contexto, ainda geraria um interesse digno em sua criação, que é no mínimo interessante, uma vez que foi feito a partir de três fitas MiniDV descobertas há pouco tempo e que não têm maior valor criativo do que documentar uma viagem do norte ao sul de Gaza naquela época, em meados de 2001. As imagens foram encontradas a partir de uma busca de Kamal Aljafari por um ex-companheiro de prisão em 1989. O filme ganha representações muito empíricas a partir disso, e cresce conforme notamos que nada mais é do que um fragmento, cheio de verdade e vida, que hoje se adequa a uma ruma de filmagens e a um movimento global pela liberdade do povo palestino.

O mais recente projeto cinematográfico com envolvimento direto de David Lynch, The Legend of the Happy Worker, chega em um momento interessante. É um filme americano sobre esperança, não a típica esperança política que vem dos Estados Unidos e se concentra em uma pessoa como salvadora, aquele complexo de dependência ou heroísmo barato. Tem um pouco disso, mas é principalmente sobre um otimismo radiante e um tanto lúdico que usa o surrealismo para transmitir uma quase fábula, uma história do bem contra o mal que o diretor Duwayne Dunham tem pouca vontade de esconder, porque suas escolhas são genuínas, essencialmente em seu apelo visual, com cenários que beiram a fantasia aumentada.
No filme, acompanhamos Joe (Josh Whitehouse) enquanto ele ascende ao poder, deixando para trás seu status de trabalhador para se tornar o chefe, o patrão. E, como pressupõe a ideia do oprimido se tornar o opressor, Joe começa a agir tiranicamente com todos ao seu redor, incluindo sua família. Isso não dura muito, pois a ideia da peça é nos fazer refletir e não impor a Joe um fardo profundo sobre comportamento e ideais sociais. Ele é apenas um fantoche que o diretor usa para conduzir sua narrativa, repleta de caricaturas e exageros que ultrapassam o teatral. E isso é belo, porque o esforço em usar esses elementos justifica o fato de não se esforçar para ser verdadeiramente sério e…comum.
Em seus momentos mais interessantes, o filme abraça sua ode ao antigo que era tão novo no cinema. O surrealismo brinca com noções de montagem e recursos limitados de cenário e design – mas sabe como transformar esses contratempos em algo bom, algo que imprima identidade. Daí o fluxo de edição bastante enferrujado, uma mise-en-scène acolhedora e que realça o tom da comédia sob medida que o longa busca expor. É uma das coisas mais divertidas para se ver em 2025, um filme que, acima de tudo, destaca a união e em um momento em que o governo dos EUA está promovendo a segregação e o mundo está se voltando para ideologias nefastas de direita. The Legend of the Happy Worker brilha com sua iluminação clara, suas cenas musicais e a direção esperançosa de Dunham.

