Locarno 2023 – Family Portrait

Em uma das cenas mais antológicas de “Gente Como a Gente” (ou Ordinary People), filme dirigido por Robert Redford, Calvin (Donald Sutherland) tenta realizar uma fotografia entre Beth (Mary Tyler Moore) e seu filho Conrad (Timothy Hutton). A trama gira em torno da dolorosa perda de seu outro filho, levando Beth a atribuir a culpa da morte a Conrad. O ressentimento é tão intenso que parece construir barreiras emocionais ao redor dos personagens envolvidos nessa tragédia. Na cena em questão, Beth luta para manter a fachada de uma família perfeita, apesar da angustiante sensação de posar para uma foto ao lado de alguém que ela optou por deixar no passado. A imagem naquela fotografia simboliza algo que não existe mais: um vínculo familiar. O desconforto palpável entre os dois personagens transmite de forma vívida a complexidade de sua relação. No entanto, ao contrário de Beth, Conrad já não consegue mais desempenhar seu papel nessa encenação criada por seus pais. A tentativa de manter aquela estrutura familiar erguida parece ser em vão, visto que nenhum dos envolvidos consegue superar o desdém e a mágoa. Aquela foto em família não passaria de uma mera representação superficial. 

No filme de Lucy Kerr, as emoções e as relações familiares não parecem tão intensas quanto no filme de Redford, mas o aspecto da desconstrução desses laços familiares parece ser o mesmo. O filme, ambientado nos primeiros momentos da disseminação do vírus da COVID-19, retrata uma reunião em família repleta de insinuações não ditas e sentimentos reprimidos. O que deveria ser uma simples tentativa de capturar um retrato familiar se transforma em um desconcertante distanciamento entre os personagens. Ao que parece, com exceção da protagonista interpretada por Deragh Campbell (que consegue retratar bem toda a peculiaridade da história), nenhum dos membros daquela família parece estar realmente interessado em participar daquela fotografia. Não há um motivo explícito para esse afastamento, pois, assim como na realidade, é inerente à natureza humana perceber que talvez não tenhamos muita semelhança com nossa própria família. Kerr, que lida habilmente com essas questões, trabalha de forma eficaz. Ela aproveita o espaço e o enquadramento da câmera a seu favor, construindo um encontro familiar por meio do que não é visível. Quando um personagem central desaparece, Kerr nunca assume o ponto de vista dos outros ao redor. Nós, ao contrário deles, não possuímos uma visão completa do ambiente em que se encontram. Não estamos familiarizados com aquele local e, conforme Kerr propõe, assim continuará. Essa técnica intensifica o estranhamento inicial nas discussões que testemunhamos no início do filme, tornando-se ainda mais tangível à medida que a protagonista parece se perder em seus próprios pensamentos.

Apesar de ser exaustivo assistir a mais um filme abordando a pandemia do COVID-19, é importante ressaltar que Kerr é extremamente realista ao retratar tudo o que ocorreu nos primeiros meses do vírus. Seja ao apresentar diálogos nos quais os personagens comentam sobre mortes súbitas sem qualquer sinal visível de doença, ou em momentos nos quais esses mesmos personagens parecem subestimar a potencial gravidade de toda a situação, a diretora consegue recriar conversas que muitos de nós realmente vivenciamos durante aquele período. Dentre os filmes que abordaram o tema, “Family Portrait” parece ser o que mais se aproxima no que diz respeito a representar a paranóia em torno da doença. Exibido no Festival de Berlim deste ano, “About Thirty”, dirigido por Martin Shanly, também oferece uma perspectiva realista sobre os primeiros momentos do vírus. Ao contrário de Kerr, a direção de Shanly parece ser mais inventiva. Enquanto ela opta por planos mais longos e contemplativos, Shanly conduz seu filme através de uma abordagem mais vibrante. Embora sejam bastante distintos, ambos possuem um senso de humor característico. A versão de Shanly se assemelha mais aos filmes coming-of-age que têm dominado o cenário cinematográfico mundial nos últimos anos. Por outro lado, Kerr utiliza um humor mais sutil, onde muitas vezes o riso é acompanhado por uma sensação prolongada de estranheza. O que realmente importa é que filmes como “Family Portrait” de Kerr, “About Thirty” de Shanly, “Bad Luck Banging or Loony Porn” de Jude e “Kimi” de Soderbergh nos demonstram que é possível criar obras que não apenas funcionam como cápsulas do tempo, mas também conseguem se destacar como trabalhos individuais dignos de atenção.

Quando se trata de desastrosas reuniões familiares, outro filme que apresenta semelhanças com o trabalho de Kerr é “Krisha”, dirigido por Trey Edward Shults. É verdade que as intenções por trás dos personagens em “Family Portrait” são muito mais implícitas do que no filme de Shults, porém, a atmosfera absorvente e paranoica que permeia a trama é a mesma. Ambos os trabalhos refletem influências do movimento cinéma vérité (que tem sido constantemente referenciado no cinema independente americano na última década). O que mais fascina nas semelhanças entre os dois é a maneira com que, na técnica, eles não poderiam ser mais opostos. Assim como foi citado na comparação com “About Thirty”, Kerr opta por utilizar planos longos e contemplativos para criar imagens desconcertantes, já Shults parece utilizar os close-ups para causar esses mesmos efeitos. Mas diferentemente de “Krisha”, “Family Portrait” parece muito mais elusivo no que se diz respeito às dinâmicas entre os personagens. A natureza elíptica da direção de Kerr funciona ao seu favor, ocasionando não apenas uma representação conclusiva de um dia em família, mas de uma constante procura pelos laços familiares do passado.


VEJA TAMBÉM