Pinóquio (2022)

Avaliação: 1.5 de 5.

Nos tempos da computação gráfica e da alta tecnologia no cinema, os diretores conseguem com facilidade replicar a realidade. A Disney também, mas quando reproduz o que antes era impossível, perde a magia que a consagrou ao longo dos anos. A insistência do estúdio com live-actions é um tiro no pé, ainda mais quando a maioria dos relançamentos da Disney não foram tão bem sucedidos. Por conta da trajetória marcante no início do século 20, o estúdio de Walt Disney pode até se considerar imbatível em bilheteria, mas o mundo mágico que um dia esteve em suas animações, não é o mesmo.

A animação original, lançada em 1940, inspirada no conto italiano “Pinóquio” explora a mente criativa do pobre e solitário carpinteiro viúvo e de seu projeto mais apaixonado, um boneco de madeira inspirado no filho falecido, que se chama Pinóquio. Assim que ganha habilidades humanas, Pinóquio é posto em sociedade e passa a se desvirtuar do caminho disciplinatório inúmeras vezes. Desde que Pinóquio pôs os pés para fora da casinha de Geppetto, o mundo real parece aumentar a distância entre o boneco e seu pai, o que o leva precocemente a experienciar o mundo dos adultos. Quase uma aula de boas maneiras para as crianças do século 20, “Pinóquio” conseguiu obter sucesso ao retratar os ideais corretivos através do uso da obscuridade na animação, que pesa a história do boneco e deixa ainda horripilante. Observando o quão ousado foi o lançamento da animação nos anos 40, é deprimente afirmar que os tempos audaciosos da Disney parecem bem distante da realidade atual do estúdio.

Um novo Pinóquio é uma péssima ideia. Uma das piores ideias do estúdio. Retratar contos de fadas com um olhar humano pode até funcionar, mas aqui é perceptível a falta de criatividade. Pinóquio é um conto tão imaginativo e mágico que não tinha como funcionar em live action. Impossível não ficar envergonhado com os excessos do longa, ainda mais quando não tem emoção. O longa parece estar em falta com a própria realidade. Os fãs da animação original se sentirão frustrados com a falta de nostalgia que é gritante. Tudo parece fora de sintonia e desinteressante.

Nem a música que marca significamente as animações da Disney, principalmente no “Pinóquio (1940)”, consegue instaurar um vínculo com o novo público. Os momentos musicais não são tão atrativos quanto deveriam. As canções não foram repaginadas para a modernidade, o que é entendível na preservação da identidade do primeiro filme. Mas o único momento musical que consegue despertar um mínimo de atenção é o de Cynthia Erivo, que interpreta a Fada Azul. O que fala mais alto não são os efeitos especiais, mas a nostalgia ao ouvir a canção “When You Wish Upon A Star”.

Os efeitos especiais não acrescentam nada em “Pinóquio”, apenas reforçam a insistência cansativa da Disney em criar live actions por dinheiro, e por fim, são tão desagradáveis que ofendem aos originais. São tantas as sequências de artifícios visuais, que o longa parece um projeto de esboço para teste de CGI. O roteiro tenta adicionar novas cenas e até estender outras, mas deixa de lado o desenvolvimento de Pinóquio com seus companheiros de cena. A relação de Pinóquio com seu pai não é tão emocionante quanto na animação, só é vista como significativa porque ambos se separam rapidamente. Outro personagem que acaba passando batido é o Grilo, que saiu de falante na animação para silencioso no remake. Só não é tão desastroso quanto a péssima readaptação de “Dumbo (2019)” do diretor Tim Burton, que tirou o protagonismo do elefante e dividiu com duas crianças desprovidas de carisma.

O fato é que o diretor Robert Zemeckis também não ajuda. Ele faz péssimas apostas na direção. Apesar de experiente, o diretor chega a tirar o espaço coeso e dramático da história para apostar numa frágil comicidade – com direito a uma nova cena onde Pinóquio se concentra ao ver um monte de fezes de cavalo na rua. Como se não pudesse piorar, o final dramático que Pinóquio teve em 1940, é substituído por uma patética aventura no mar.

Chega a ser criminoso ter feito um live action para uma obra que claramente não precisava disso. Parece que há muito a ser dito na animação de 1940, enquanto no filme, os efeitos especiais parecem desequilibrar todo o longa. O deprimente é que nenhum dos momentos soa natural, não tem química e profundidade no longa. Nem o amor de Geppetto pelo boneco acaba fazendo tanto sentido, por mais Tom Hanks se esforce o tempo todo. “Pinóquio” é a prova de que a Disney precisa se reinventar e buscar por novas inspirações, ao invés de estragar clássicos já consagrados. Está na hora de parar.


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