TIFF – Miúcha: The Voice of Bossa Nova

Avaliação: 3.5 de 5.

A história de Heloísa Maria Buarque de Hollanda, mais conhecida como Miúcha, tem parte central na construção da linha do tempo da música brasileira. Ela teve perto de si os principais artistas nacionais da época, se fazendo presente na criação e popularização da Bossa Nova, mesmo que os seus maiores momentos tenham sido atrás das cortinas. Figura essencial na vida de João Gilberto, Miúcha muitas vezes se viu ostracizada da carreira de artista, mas não é como se isso diminuísse a grandeza revolucionária de sua personalidade.

Daniel Zarvos, primo da artista, se juntou com a diretora Liliane Mutti para contar a história de Miúcha de uma maneira particular. É através dos relatos escritos pela cantora que a atriz Slivia Buarque narra suas maiores confissões, sejam sobre sua carreira, seu casamento ou seu amor pela música brasileira. O documentário acompanha toda a trajetória musical de Miúcha, desde sua mudança para Nova York, onde morou por anos com João Gilberto, até seu retorno ao Brasil, onde buscou o conforto causado pelo canto. Durante seu casamento com João Gilberto, Miúcha foi privada cruelmente de seu maior sonho. Ela, que tão solta permitiu-se prender, tenha sido por amor ou pelo medo, nunca escondeu sua paixão incansável pela música, que fez com que ela se tornasse a grande mulher por trás de um pequeno homem. O pequeno para João Gilberto não tem a ver com sua imensidão artística, mas sim sobre sua personalidade. Ele é mais um caso de um artista torturado que, ao se frustrar com as próprias criações, se sente no direito de tornar a vida de todos ao seu redor tão miserável quanto seus pensamentos. Por muitos anos Miúcha foi definida pela sua relação com o artista, mesmo que não aceitasse o papel de coadjuvante na própria vida, deixar tudo que construiu parecia um fim pior a sua história.

Irmã de Chico Buarque e esposa de João Gilberto, é como se um lugar na sombra fosse tudo que ela ganharia como artista. Mas Miúcha era muito maior do que isso. Ao não utilizar qualquer outro tipo de depoimento a não ser o dela, Zarvos e Mutti foram capazes de dar voz e protagonismo a alguém que muitas vezes se sentiu silenciada e menos importante. Aqui, ela tem total controle da sua própria história. É um trabalho completamente vulnerável, onde Miúcha pode dizer tudo que sente da maneira que sente, sem ter que pensar no que os outros vão pensar. Ela foi negada a voz por toda sua vida, o que torna o documentário em uma espécie de manifesto, como um basta para tudo aquilo que ela foi privada.

O trabalho de edição do filme é excepcional. Isabel Castro e Daniela Ramalho construíram uma narrativa que intercala a Heloísa Maria Buarque de Hollanda, mãe, esposa e amiga, com a Miúcha do conhecimento popular. É um trabalho pessoal e afetivo, que dá destaque tanto aos seus melhores momentos quanto aos mais baixos. É uma carta de amor tanto à artista, quanto a todas as mulheres que em algum momento da sua vida tenham se sentindo inferiorizadas, e é exatamente isso que torna a história de Miúcha em algo tão fácil de se relacionar.

O documentário tem uma das melhores decisões artísticas do ano, que é a de abordar a vida e carreira de Miúcha enquanto viva, sem seguir a narrativa clichê de ostracismo e falecimento que alguns documentários costumam seguir. É uma decisão que acaba por dar a impressão de que a Miúcha não teve um fim. É como se ela ainda fizesse parte desse mundo e dessa história, fazendo com que a sua música seja ainda mais estrondosa.


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