Ida, Martha, Penélope, Ginger ou simplesmente A Noiva: esses são alguns dos nomes que a personagem principal, interpretada por Jessie Buckley, recebe ao longo da grande odisseia punk-feminista que é o novo filme de Maggie Gyllenhaal. Um epinício que celebra a rebeldia e o poder feminino através de três personagens que, sozinhas, já são abstrações de populares arquétipos majoritariamente masculinos; uma cientista, uma detetive e, é claro, o monstro de Frankenstein. Nada em A Noiva é subtexto — e nem devia, visto que nos últimos meses (assim como em toda a história) uma onda de obras deliberadamente misóginas vêm ganhando espaço entre o público geral. Durante uma das cenas mais emblemáticas do filme, por exemplo, a protagonista grita “Me too! Me Too!” em ordem de conquistar o direito de algo que já havia sido concedido a Frank, mas à ela não. É claro que o filme tem mais caráter panfletista do que político, já que sua militância está, na maioria dos momentos, mais presa ao tema do que à forma, o que felizmente não impede o filme de ser radical em momento algum.
Por falar na forma, é tudo que se espera de uma releitura de Frankenstein. Digo isso por ser um verdadeiro emaranhado de gêneros que juntos fazem sentido como um só. O filme transita entre o terror do espaço liminal onde habita Mary Shelley, ao filme de assalto, ao musical, ao filme de máfia. Costurados formando uma única peça espalhafatosa, mas completamente segura de si, fazendo com que seus próprios personagens ganhem camadas sem dizer uma palavra sequer. A Noiva não é mais só uma assassina e ladra procurada pelos Estados Unidos, é também a ocasional líder de uma revolução feminista no país. Ou, logo na primeira cena, quando um dos homens no jantar decide fazer uma piadinha com Ida, o que leva ao despertar de Mary Shelley em sua mente e a gradual possessão da personagem. A articulação de todas essas partes distintas é justamente o que faz com que o filme funcione. Maggie entendeu, como já havia entendido em A Filha Perdida, que a única resposta eficaz para qualquer tipo de opressão não pode vir numa embalagem bonita e delicada. Essa maneira que Gyllenhaal encontra de se comunicar faz com que a protagonista seja a personificação de sua própria obra. A Noiva é a metalinguagem de sua própria forma e a inscrição de todo o pensamento do filme em uma única pessoa e por isso carrega em si tanta presença (e, claro, com a força do que é a melhor performance de Jessie Buckley até hoje). Nada te prepara para o momento em que a personagem decide que seria homônima ao filme, já que separar os dois é impossível.
Acho curioso como Maggie Gyllenhaal tem uma grande paixão por construir suas personagens por meio da abstração de arquétipos masculinos (como já até havia dito no primeiro parágrafo), mesmo que só tenha dois longas, em ambos a protagonista segue essa mesma fórmula da exploração do que seria causado caso mulheres ocupassem papéis dominados por homens e, enquanto em A Filha Perdida o resultado seja auto-corrosivo, em A Noiva é completo oposto. O Clássico Frankenstein pode nascer sem saber falar, andar ou sem ter qualquer noção básica do que é estar vivo e do que é ser humano. Esse com certeza não é o caso da Noiva, e pelo contrário, a personagem é marcada pelo seu vocabulário e pelo seu total senso de liberdade. Parcialmente porque seu ID é o espírito de Mary Shelley, mas também porque ela sabe, embora tenha se esquecido, que foi uma vítima de feminicídio por falar demais. (E, diga-se de passagem, a cena de sua morte é facilmente uma das melhores do filme.)
Não é exagero e nem hipérbole dizer que, de todas as as várias adaptações e reimaginações de Frankenstein que tivemos nos últimos anos, A Noiva é de longe o melhor. Dos que veem em mente, Maggie Gyllenhaal é a única a conseguir, ao mesmo tempo, ultrapassar a barreira do estilo enquanto ainda tem de fato algo a dizer. Um ponto de vista real que não busca reconstruir a obra original — na verdade, parece que A Noiva (e isso vale pro filme e para a personagem em si) busca sempre obstruir aquilo que se é esperado. Isso é, Maggie não conta a história, mas pega ela para si e a usa como vetor da revolução agressiva e grosseira em meio a um cenário antigo tão estereotípicos que se tornam cartunescos. Tudo é feito com estilo mas nada é puramente estético: um flash mob que se torna manifestação política e uma pista de dança como metáfora para o abuso sexual, cenas expansivas e nada normativas que acrescentam de fato para a discussão central daquilo tudo ao invés de só serem desconfortaveis ou “fora da casinha”, mas sem nenhum valor artistico. É um filme feito de fato com paixão e muito compromisso com a própria visão artística e a ideia primordial, mesmo que essa ideia seja inerentemente desregrada e baseie-se na total desordem, é nessa desordem que achamos aquilo que está sendo dito.
Agora não restam mais dúvidas, Maggie Gyllenhaal é uma das melhores diretoras em atividade e continua surpreendendo com sua habilidade logo no começo da carreira. Enquanto em seu primeiro filme a diretora traduz a melancolia do abandono e a culpa da felicidade só com a voz de forma intensa mesmo com um filme intimista, agora ela explode em um turbilhão sensorial que faz com que o tema supere o texto e crie vida. São poucas as pessoas em Hollywood com tamanha criatividade cênica que Gyllenhaal parece possuir com facilidade nata. É um furacão imparável que permanece por dias com o espectador. Talvez, como a própria noiva que acorda e radicaliza um mundo estável e injusto, Maggie tenha vindo para des-higienizar a indústria americana do século XXI.

