Berlim 2026 – Yellow Letters, Nina Roza & Chimney Town: Frozen in Time

As situações difíceis que Yellow Letters vai acumulando durante suas pouco mais de duas horas de duração percorrem uma espécie de trama política que nem sempre precisa ser explicitada. O filme acompanha um casal de artistas que passa a ser perseguido pelo Estado, e vão aos poucos perdendo tudo o que têm. O ponto de colisão está no ato de, apesar de suas influências, Derya e Aziz serem impedidos por forças maiores de se colocarem contra seus algozes.

O filme parte dessa premissa para perpetuar questões cada vez mais atuais, como a tirania de governos considerados “democráticos”, e joga direto contra o que o presidente do júri da competição do Festival este ano, Wim Wenders, afirmou ao comentar que o cinema deveria ficar fora da política. O efeito alcançado por Yellow Letters está longe de ser o único, essencialmente no contexto atual do conflito em Gaza. O que choca, são as escolhas de İlker Çatak em não mostrar, de forma literal, a perseguição, nem seus perseguidores.

É como se Derya e Aziz lutassem contra um inimigo invisível, sofressem danos que são constantemente ignorados e apagados e ainda tivessem que buscar meios para recomeçar. São momentos de diálogos que expõem as incertezas, a culpa e a sanidade de quem sofre este tipo de perseguição. A sensação de impotência e a fragilidade das relações durante momentos conturbados são verdadeiras colocações que potencializam o peso que um filme precisa ter em dissensão a realidade. É por isso que Yellow Letters soa tão espinhoso, tão forte ao mesmo tempo tão sensível…

Leva algum tempo para compreender a forma que Nina Roza, filme de Geneviève Dulude-De Celles, usa para atingir seu epicentro temático, situado na memória de Mihail, que deixou a Bulgária por volta da década de 1990 após sua esposa morrer, e sozinho criou sua filha pequena, Roza, em Montreal. Só notamos o poder exposto da lembrança no filme quando ele precisa voltar para a Bulgária devido ao seu trabalho, que consiste em ser um especialista de arte francesa contemporânea e por isso deve ir para analisar as obras feitas por uma menina de oito anos chamada Nina.

Não é preciso de muito esforço a partir daqui para saber que Mihail vê em Nina um espelho de sua própria filha, e os desafios dessa jornada de retorno começa pela recuperação do que eles viveram, não apenas o período difícil e os desafios, mas também o modo como a relação deles se guiou, sobretudo as relações dele com todos a sua volta. É constante o silêncio de Mihail, seus gestos e movimentos seguros e inseguros na mesma medida, calmo e lento, como se buscasse evitar ser notado. Mas ele sabe que não pode se esconder da nostalgia, por isso se sente atravessado pelo passado o tempo inteiro.

O filme acerta ao tornar essa jornada visualmente íntima, com tons noturnos e tratamento natural, como se a câmera o acompanhasse sem também querer ser notada. Dá a impressão que invadimos as memórias dele através de artifícios da própria edição, da música e do tom íntimo que o longa carrega por se estender e optar por uma quase anulação da velocidade do tempo. É por isso que a lembrança, aqui, vai além da mera exposição de alguém que precisa encarar seus fantasmas, mas como sendo parte da nossa própria formação humana, e filmar isso através de uma trinca de comportamento, arte e relações é o que faz Nina Roza saltar aos olhos.

Os longas de animação japoneses têm sempre um espaço de admiração demarcado no imaginário de quem, em algum momento de sua vida, se viu obcecado pelas produções do Studio Ghibli. Ainda que haja diferenças conceituais e técnicas, filmes como Chimney Town: Frozen in Time acabam por perpetuar a beleza desse cinema que vai muito além da experiência momentânea ou da intenção primária de entreter. É um filme que, de certo modo, convida à reflexão, do tempo, do presente, do passado e do futuro.

O filme conta a história de um garoto chamado Lubicchi, que após perder seu melhor amigo acaba entrando acidentalmente num reino misterioso que governa o tempo. Lá, ele faz novas amizades e conhece figuras que habitam aquele mundo há séculos. A jornada começa quando o jovem garoto descobre que, para sair dali, precisa reiniciar um relógio que está congelado às 11:59. Há uma atmosfera de mistério, um temor que circunda a animação e que trata a inocência do personagem como fruto da descoberta e da vontade de, apesar da tristeza, retornar de onde ele estava.

Neste sentido, o texto acaba sendo muito maduro. E os visuais, que apelam para uma ludicidade encantadora, fornecem o escopo necessário para que qualquer um se veja imerso tanto na história quanto em todo aquele ambiente desenvolvido para comportar a narrativa, que entrelaça temas como superação, amizade, determinação e coragem. São coisas universais, é verdade, mas há um brilho especialmente presente aqui que gera mais do que identificação. E esta é a chave de Chimney Town: Frozen in Time, ir além do que visualmente ou tematicamente propõe como animação.


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