Provavelmente a melhor odisseia que teremos no intervalo de um ano, ou talvez mais que isso. É um filme que fica difícil não “paparicar” exageradamente, porque chega a quase emocionar o quanto Safdie se comprometeu a entregar aquilo que, com certeza, pensou enquanto ainda estava nos primeiros estágios de desenvolvimento; ele definitivamente pensava em algo grande, não tinha como não ser. Seu olhar feroz e incessável sobre uma história que, a todo momento, começa e termina repetidamente foi tão bem executado que cerca de 70 milhões não foi nada exagerado, assim como os elogios recebidos pelo resultado disso.
Não há pouco o que se discutir sobre Marty em si, definitivamente um dos personagens mais marcantes dessa década até agora. O elo entre ele e Chalamet é o cerne de tudo envolvendo o filme. Como pode ser tudo tão metaligústico sobre isso? Uma promoção do filme amparada toda nas costas de Chalamet, mas feita com certa folga, pois, das melhores características que Marty possui, que não são muitas, Chalamet só teria que saber como juntar tudo e conseguir levar as pessoas ao cinema para verem um filme original sobre um jogador de pingue-pongue, deixando, a todo tempo, transparente que compartilha de, no mínimo, um dos sentimentos mais visíveis de Marty: a confiança.
A Nova York dos anos 50 é maçante. Safdie deixa, desde o começo, o alto tom de disparidades sociais, mas não se prende a isso em nenhum momento. Marty, através do olhar de Safdie, nunca deixa o ar de sonho a ser alcançado sumir da vista de quem o acompanha. É uma história bem além do desejo de conseguir algo, mas, primordialmente, sobre o sentimento de, ao menos, almejar algo maior. Afinal, o que seria de nós sem a liberdade de pelo menos mentir um pouco para nós mesmos no ato de sonhar? É algo que o próprio cinema pode nos proporcionar e deveria nos proporcionar bem mais, pois chegou a fazer isso com mais frequência.
Poucas vezes, nos últimos anos, diretores mainstream conseguem, de fato, realizar um filme amparando-se, ou pelo menos tentando, em uma abordagem clássica. Safdie faz isso muito bem, com uma direção que soa bastante moderna na maneira como sempre gosta de passar a sensação de perseguição e euforia em quase todo o instante, dando muito mais material ao espectador para raciocinar através da perspectiva de Marty, ao invés de julgá-lo de imediato (o que não é nem um pouco errado fazer).
Por mais casais que se merecem interpretados por estrelas jovens com paixão em suas atuações; mais de uma fotografia que lembra ‘Cruising’ de Friedkin, em vários momentos, principalmente nos noturnos; mais de uma trilha sonora que é facilmente uma das melhores do último ano e, com toda certeza, por mais cenas como a do sorriso de Paltrow quando a plateia a aplaude na abertura de sua peça.

