É engraçado notar como Socorro! tem sido visto como o retorno de Sam Raimi ao terror, lugar de onde ele nunca saiu – ou, pelo menos, nunca se distanciou em grande medida. O filme logicamente opera com os signos do cinema de gênero, e destaca tanto o apreço do diretor pela temática quanto sua habilidade irretocável de percorrer este espaço baseando-se no seu espécime de terror, com acenos claros a Uma Noite Alucinante – A Morte do Demônio (1981), sobretudo pela forma como o público pode reagir a algumas de suas escolhas que surgem em tela banhadas de sangue.
No filme, Linda Liddle (Rachel McAdams) precisa fazer de tudo para sobreviver ao lado de seu patrão, o esnobe Bradley Preston (Dylan O’Brien), numa ilha remota, após serem vítimas da queda de um avião. A premissa simples está ligada ao orçamento, também modesto, e aos recursos que o diretor usa para tornar essa estadia na praia um verdadeiro terror, em sua completude de significados.
A grande sacada é o fato de Linda, uma funcionária exemplar, mas que se comporta como A Feia Mais Bela, ter na vida real um repertório digno de programas de sobrevivência, dos quais ela, além de fã, já buscou participar. Em contrapartida, seu chefe, Bradley, é o típico homem cuja virilidade e masculinidade se tornam inúteis quando necessário, por ser justamente características fajutas e postiças de machões que querem estar por cima o tempo todo. Ao notar esse comportamento, Linda tem em suas mãos não apenas a oportunidade de mostrar para ele sua competência, mas também de fazê-lo dependente de sua astúcia. Neste ponto, é inegável o quão divertido o texto se torna para expor dinâmicas do cotidiano como feminismo e relação trabalhista.
Posto isso, o trabalho do diretor é fazer o que de melhor ele sabe: ensanguentar todas as camadas dessa relação, que vai evoluindo e passando por diferentes estágios de sobrevivência e interações quase ecológicas, com dois indivíduos disputando não apenas o espaço, mas também os recursos e, acima de tudo, a integridade individual. A abertura para dilemas que perpassam o que está sendo exposto como ponto central da narrativa é o que permite a Raimi acessar seus próprios signos, a ponto de referenciar sua filmografia em diferentes instantes, às vezes sendo bem literal. Os ângulos são testados o tempo inteiro para provar a mais pura perversidade de ações que esmagam a ética e a moral, e que deixam de fazer sentido ao lado da confiança que os personagens vão, aos poucos, perdendo.
O combo de linguagem de terror do diretor com o humor cortante do texto cria situações tão absurdas que somente Rachel McAdams pode exemplificar como sendo uma espécie de anti-náufrago, pois há, na dureza de sua perspicácia, o desejo de fazer desta ocasião uma mudança de vida, uma promoção no trabalho que fora tirada pelo seu chefe. Neste ponto, o Código de Hamurabi é evocado, e Raimi precisa lidar com a frieza que impõe sobre a personagem, e ele faz isso tão bem que subverte o aspecto sensorial preso aos típicos thrillers de sobrevivência. É por isso que, por mais próximo que seja das marcas do diretor, especialmente nos movimentos de câmera – que requentam, nas cenas de luta, sua passagem por Homem-Aranha –, Socorro! soa distante, de alguma forma, do que ele já havia feito principalmente por lidar com limitações (e fazê-lo com gambiarras, estilo filme indie em alguns momentos) que dão ao longa uma atmosfera trash, mas com requinte (lê-se tato do diretor em ser um dos poucos de Hollywood a saber como tirar leite de pedra).
É por isso que pensar Socorro! como um filme de gênero, que contém elementos autorais e que recorre a um universo criado por este autor, é um desafio que engrandece tudo aquilo que ele expõe, mesmo sem grandes novidades ou diante de maneirismos que aqui ganham corpo, espírito e sangue. Muito sangue.

