Em 1949, o escritor inglês George Orwell publicava o insigne 1984, que viria a ser seu último livro, apenas quatro anos após o lançamento de A Revolução dos Bichos. Ambas obras, em suas particulares maneiras, exploram o totalitarismo por meio da ficção e cenários distópicos. Por isso, o documentarista Raoul Peck traça paralelos entre a história da obra de Orwell e situações reais, principalmente a Segunda Guerra Mundial, guerra na Ucrânia e o governo Trump, ao mesmo tempo que, por meio de excertos de seu diário, faz uma espécie de biografia do autor.
Infelizmente, o filme segue uma linha confusa e desordenada; a princípio, o documentário é dividido em sessões inspiradas pelos bordões paradoxais do governo imaginário de 1984 (“Liberdade é escravidão”, “Guerra é paz” e “Ignorância é força”). Pela diferença entre cada um dos títulos, é de se esperar que houvesse certa desarmonia de conteúdo entre um capítulo e outro, mas cada segmento por si só já é uma bagunça completa. A discrepância de uma cena para a próxima torna o objetivo de acompanhar a argumentação praticamente impossível e o fim de cada parte tem quase nenhuma relação com seu início. A sensação que fica é a de megalomania, um filme que tenta cobrir tudo enquanto deixa pelo meio diversas pontas soltas e repetições. Por exemplo: em dado momento uma série de clipes sobre consumo corta abruptamente para mais um voiceover narrando um pedaço da vida de George Orwell que tem essencialmente nada em comum com a sequência anterior, e essa sensação de “ei! Isso não foi o suficiente” é constante durante todo o longa (menos ao longo das duas sequências feitas com I.A. que, além de não levarem para lugar algum, são vergonhosas).
A ideia é inegavelmente interessante no papel, mas, na prática, é simples e a forma pouco polida. Talvez, seu grande problema seja a falta de material próprio, já que o filme depende únicamente de um arquivo já existente de fotos, vídeos e textos, assim se tornando incapaz de articular mais profundamente qualquer ideal que apresenta. Não apresenta nenhum ponto de vista novo sobre os eventos históricos que tenta cobrir ou sobre a obra que inspira o título do documentário, mas, olha só, agora sei que George Orwell passou alguns anos no Myanmar.

