Blow-Up (1966)

Avaliação: 5 de 5.

Em uma visão única sobre a perspectiva, Blow-Up apresenta uma premissa simples, mas que, por natureza, se contorce diversas vezes; Um fotógrafo londrino acredita ter documentado sem querer um assassinato, porem — mesmo que Antonioni imite à risca a forma de um suspense policial — desde o principio é sugerido que o enredo é a coisa menos importante acontecendo ali: o que interessa é a simbologia que acompanha cada curva da história. O filme transforma seu pequeno mistério em uma exploração do significado até o ponto em que, em vez de narrar a solução de um crime, dissolve a verdade em diversos fragmentos que são refratados até que se tornem o oposto de seu estado original.

O centro de tudo é Thomas, um fotógrafo arrogante, que para a história é colocado como observador e como influência: ele tem total controle do que vê (ou pelo menos acha que tem). Jovem, vive sua vida com na moda, no sexo, na maconha e outras coisas supérfluas, mas não vê proposito em nada disso: a vida de Thomas é chata e insensata, e por isso, buscando aventura em um ato que a princípio parece banal banal até demais, encontra pistas de um crime no zoom granulado de suas fotos: um corpo caído e uma face tremula que se esconde nos arbustos com uma arma. Como é possível que alguém com tanto controle do espaço não tenha percebido algo assim acontecer diante de seus próprios olhos? Essa é uma das diversas vezes que o filme desmantela o que conhecemos como realidade. Afinal, o que é a realidade se não uma construção da interpretação individual?

Antes disso, a sequência de abertura acompanha o que depois descobrimos ser a chave para decifrar de fato essa obra, caso as pistas em seu miolo não tenham sido o suficiente. Um carro que carrega um grupo de incontáveis mímicos dentro (e fora) de si estaciona no centro de uma cidade. Rapidamente, os passageiros correm e gritam pelas ruas balançando latas barulhentas e pedindo dinheiro para quem encontrarem no caminho. É curiosa, à primeira vista, a escolha de algo tão específico como um grupo de mímicos, mas ao se dar conta que a forma que interagimos com as circunstâncias sociais ditam a forma que enxergamos a realidade. Mímicos não possuem nada fora suas ações — não falam, têm adereços ou apetrechos: tudo se baseia puramente nas circunstâncias (físicas e sociais) que eles expressam através da encenação.

A ambientação é em uma Londres muito única, não tão cheia, mas mesmo assim vibrante. Todos seguem funções sociais ditadas pela cultura da época, em mais uma forma do filme nos dizer que o ambiente nos torna quem nós somos. As relações de Thomas se destacam por serem completamente superficiais; seja com as modelos que fotografa, com seus amigos ou com pessoas que acaba de conhecer, todas as suas interações estão impregnadas com o desapego. A primeira vez no filme que vemos o protagonista fixado de fato em algo é quando descobre a cena trágica na ampliação de suas fotos no parque. Simultaneamente, esse parece ser o primeiro momento que ninguém se interessa de fato por o que ele tem a dizer.

Surpreendentemente, a cena do longa que mais me causa intriga é a que Thomas compra uma hélice. Não é mais absurda que nenhuma outra cena que o filme trata com casualidade, mas é de longe a forma mais clara e direta que Michelangelo Antonioni encontra de dizer que não importa. O que um fotógrafo poderia fazer com uma enorme hélice de madeira? onde ele colocaria algo assim sem que parecesse amorfo naquela casa tão vinculada à corrente Pop Art dos anos 60? Não importa. No fundo, tudo que o filme retrata é a desimportância dada a tudo: tanto a vida quanto a morte.

Assim, somos capazes de entender a jornada de Thomas e como Antonioni retrata a perspectiva. O contexto não só molda, mas também limita a realidade de qualquer espectador. Por isso, logo que ninguém se interessa pelo corpo que Thomas acredita ter visto caído no parque, quando ele volta ao local não consegue mais encontrar vestígio algum de que alguma hora um defunto habitou aquele gramado.

A catarse final vem logo após: um jogo de tênis entre mímicos, quando eles voltam a dirigir o carro sem teto que vimos no começo do filme e param no mesmo parque que Thomas está. O enredo culmina naquilo, um jogo sem bola e sem raquete que faz o protagonista perceber que seu mistério não tem solução porque, ao observar uma coisa que não existe, começa a questionar a existência de tudo. Thomas pega a bola invisível e joga ela de volta para os mímicos no campo e, em seguida, desaparece como o corpo que fotografou.

Enquanto questiona a realidade e a subjetividade dela em relação à sociedade, o consumismo também pode ser interpelado. Se vivemos no capitalismo onde a sociedade é uma sociedade de consumo, o valor atribuído à tudo deriva unicamente do contexto em que se está inserido. Um objeto tão sem valor como um pedaço quebrado de violão, quando jogado do palco para a plateia, se torna um objeto desejado por todos aqueles presentes. Assim, naquele espaço, um pedaço de madeira com algumas cordas soltas é extremamente valioso. Quando Thomas sai na rua depois de vencer a batalha pelo cabo do violão, o joga na calçada. Diferente de antes, agora ninguém se importa com o artefato, já que nesse contexto ele não possui nenhum valor.

Mesmo 60 anos após seu lançamento, Blow-Up continua pertinente e extremamente atual. Na época, pela crescente da Pop Art, que misturava o produto e a fama com a arte avant garde e massificava aquilo que deveria ser genuíno. Hoje em dia, percebemos a força da estrutura cultural e social no consumo de forma ainda mais direta quando as trends ditam a moda, a música e a estética, e aquilo que não é interessante para a maioria, simplesmente some.


VEJA TAMBÉM