O fascinante sobre A Substância não é a ideia de que Elisabeth Sparkle (Demi Moore), uma grande atriz hoje deixada de lado devido ao envelhecimento, busca lutar contra essa coisa natural em nós, seres humanos, que num ato de pura falta de controle, faz dela exatamente o oposto disso (humano). Mulheres velhas no cinema existem, e a pressão sobre elas também. Mas A Substância seria muito bobo caso se limitasse a isso, e construísse seu body horror sobre o dilema de atrizes e/ou mulheres da indústria que estão envelhecendo.
A cada momento que o filme vai além, a própria percepção de uma atriz, velha e querendo ser jovem novamente, é jogada no lixo. A falta de controle é a forma mais ampla que Coralie Farget busca mirar e acertar o alvo. Neste sentido, A Substância se perde em sua própria cumplicidade, e isso é brilhante para entendermos até onde o texto vai nessa categoria de gênero distante de uma construção de drama típica. E certamente é fiel a qualquer tecnicismo mínimo de representação dos signos que fazem do body horror uma das escolhas mais arriscadas para lidar com beleza, fama, idade, feminismo e dezenas de outros caminhos que podemos citar aqui apenas pelo sangue, violência e toda a caricatura que daí decorre — como, principalmente, todo o apelo sexual que Sue (Margaret Qualley) exibe, ao lado dos ângulos sugestivos da diretora, em cenas filmadas numa iluminação desanuviada que contamina todo o filme.
De fato, além da forma como horroriza (e choca) e do tema, A Substância é muito inteligente em suas escolhas — o olho de peixe em cenas em primeira pessoa atinge um nível de critério estilístico que Yorgos Lanthimos não é sequer capaz de mensurar. Tudo é muito claro, parecendo um comercial matinal de TV, o que causa uma sensação distinta mas que, com o passar dos minutos, se dissipa junto com a verdadeira estranheza que o filme assume.
E é por isso que é interessante. A Substância não faz joguinhos nem tenta se aproximar do grotesco por meio de pirotecnias de roteiro para soar cúmplice em sua representação narrativa. A substância que dá à protagonista a chance de abraçar sua beleza se chama… substância. Essa substância é da cor… verde. Quando usada incorretamente, gera… problemas. Preciso dizer mais alguma coisa? Esse tipo de filme, que abraça a literalidade apenas para evoluir em sua figuração (visual ou não), costuma ter dois caminhos: 1) parece excessivamente calculado e 2) também parece excessivamente calculado, mas apenas com uma escalada de eventos que justifica sua expansividade. Não há dúvida de que aqui temos os dois caminhos, e o resultado bruto nos faz acreditar o quão importantes e bem utilizados ambos são.

