Entrevista com Julie Pfleiderer

Confira a versão em inglês dessa entrevista

Nascida em 1979 em Düsseldorf, Alemanha, Julie Pfleiderer é uma artista que não conhece fronteiras. Inicialmente, trabalhou como auxiliar de diretor no teatro Schauspiel Köln, na Colônia, e colaborou com o dramaturgo Matthias Lilienthal no Theater der Welt (Teatro do Mundo). Mais tarde, estudou na Escola de Artes Dramáticas de Ernst Busch, em Berlim. Ao longo de sua carreira demonstrou sua complexidade artística ao se envolver em áreas como o teatro e as instalações de vídeo. Com o tempo, ela se reinventou dirigindo comerciais para marcas como Zara e para artistas como o designer de moda Jean-Paul Lespagnard. Apesar de todas as limitações impostas no processo criativo de um comercial, é interessante notar como a diretora sempre mostrou apreço a uma matéria que seria recorrente ao longo de sua carreira: a arquitetura. Em seu comercial para a Zara, Pfleiderer colaborou com a arquiteta espanhola Elsa Urquijo para criar um vídeo destacando o design das lojas da marca em Nova York, Londres e Corunha. As imagens exibidas capturam detalhes impressionantes de sua criação. Conforme Urquijo destaca, não se trata apenas de criar um ambiente, mas de considerar os sentimentos que as pessoas experimentarão dentro dele.

Nos anos subsequentes, Pfleiderer retornou ao tema ao colaborar com a arquiteta Miriam Rohde na criação de um projeto chamado ‘Actual Size Real Time’. Durante os dez minutos de filmagem, Pfleiderer e Rohde apresentam uma perspectiva diferente sobre a arquitetura. Nos seus trabalhos, aquilo que não é visto, nesse caso, o que é omitido, tem a mesma importância daquilo que é concreto em sua visão. O que não pode ser capturado pela câmera passa a ser preenchido pela nossa imaginação, ferramenta que se revela como um aspecto essencial quando se estuda os trabalhos da diretora. Pfleiderer parece nunca estar satisfeita com as primeiras impressões, talvez porque, para ela, estas não são suficientes para transmitir tudo o que devemos saber sobre um determinado assunto. Há um aspecto psicológico evidente na maneira como ela emprega uma abordagem não linear para recriar as representações do espaço que situam essas construções. A repetição, neste caso, funciona como uma maneira de expandir nossa reação. É como se a diretora questionasse por quanto tempo nossa percepção permaneceria inalterada, provocando uma reflexão sobre a durabilidade de uma ideia. Nesse caso, a ideia, diferentemente de uma construção, pode ser interrompida, alterada. É o choque entre o concreto e o abstrato que parece interessar tanto a diretora. 

Apesar de sempre ter tido uma visão muito clara sobre seus trabalhos, “Infinite Jetzt”, o primeiro curta-metragem da diretora, talvez represente uma nova postura em sua relação com a própria arte. O curta-metragem de apenas dezenove minutos aparenta ter uma premissa simples: três indivíduos compartilham uma história ocorrida em uma cafeteria e em um aeroporto. Um deles é biólogo, o outro é um bailarino, e a última é uma atriz. Tudo o que sabemos sobre eles é o que eles dizem, ou, neste caso, repetem. Cada um representa sua própria cultura e experiência de vida. Embora a história seja a mesma, cada um deles apresenta sua versão do acontecimento. Uma simples mudança na narração é suficiente para levar o espectador em uma direção completamente diferente do que foi previamente sugerido. A montagem transforma o ordinário em extraordinário. Há um sentimento de afeto subjacente, afinal, é um filme sobre despedidas. Não se trata apenas do ato de dizer adeus, mas de tudo o que o precede: a antecipação, o anseio pelo momento. O plano de fundo preto aparece como o oposto de uma tela de pintura, mas compartilha o mesmo propósito: incentivar o indivíduo em questão a decidir como preencher aquele vazio. Mas é um vazio tomado por fragmentos de uma memória, como uma reconstrução.

Seu novo filme, “Das Retirée or the Last House of My Father”, parece mergulhar em tudo o que veio antes na carreira da diretora. É como uma matrioska de autorreferências, em que cada revelação simboliza uma nova faceta da sua história. É um acerto de contas, uma exploração das heranças familiares ou talvez apenas um retrato de família. São vários filmes em um, mas Pfleiderer nunca deixa os sentimentos transbordarem. O que poderia ser uma expressão de afeto de um pai para sua família se transforma em uma série de questionamentos que parecem conduzir todos os envolvidos a um destino comum: a mágoa. Não necessariamente ao sentimento negativo, mas ao ressentimento em relação ao que foi negado por tanto tempo. No seu fascínio pela relação entre um pai e uma filha, é um filme que explora as mentiras inocentes que fingimos acreditar para seguir em frente. Quando alcança proporções maiores, é também sobre o ato de compartilhar momentos como uma maneira de acessarmos emoções coletivas. “Uma casa e uma conversa. Isso é trabalhar duas vezes com as coisas que você tem, com as coisas que você sabe”, disse o crítico e curador Pieter van Bogaert em sua crítica ao filme. É verdade que, olhando por essa ótica, esse é um filme muito familiar para a diretora, mas isso não torna o seu desenvolvimento algo menos significativo. Explorar as questões que são do nosso conhecimento requer coragem, ainda mais quando o objeto que está sendo discutido parece ser intrinsecamente ligado à sua história como indivíduo. Parece contraditório um filme tão íntimo ser exemplo de uma questão como o senso de comunidade, mas assim como a essência humana, Pfleiderer também é complexa e por vezes contraditória. Talvez seja isso que torne o seu filme em um objeto tão esclarecedor.


Vitor: A arquitetura parece estar muito presente tanto na sua vida quanto na sua carreira artística. Por que esse é um tema que te chama tanto a atenção?

Julie: Penso que a arquitetura pode ser muitas coisas, e vivemos e respiramos em espaços. Crescendo com meu pai arquiteto e meus pais sendo muito interessados em arquitetura, artes visuais e fotografia, a consciência de diferentes espaços sempre esteve presente. Além de visitar o escritório do meu pai e seus projetos em várias etapas, desde canteiros de obras até inaugurações de edifícios, eu costumava ir ao teatro com meu pai desde os dez anos de idade. Sempre estive mais interessado em pessoas, histórias e sua relação com o espaço do que apenas no espaço em si. Claro, também no meu trabalho como diretora de teatro, você sempre cria uma tradução de um tema ou cena em uma abstração de espaço. Isso é algo que continua me fascinando: como encontrar uma forma que seja uma relação entre uma história e um contexto.

Vitor: Em um certo momento do filme o seu pai diz que não tem uma visão de como a arquitetura deva parecer, que ele só se pergunta como uma pessoa se sente e como a arquitetura pode fazer ela se sentir. Você acredita que na prática o cinema pode funcionar da mesma maneira?

Julie: Com certeza. Eu me identifico muito com a maneira de trabalhar do meu pai. É importante perceber qual assunto precisa de qual forma e não o contrário. Sentimentos e empatia surgem da relação com a história, não apenas da estética. Eles emergem da composição completa de imagens, tempo e dramaturgia.

Vitor: Você acha que seguir com a carreira artística te permitiu se questionar coisas que normalmente você não questionaria?

Julie: Essa é uma pergunta difícil, pois nunca trabalhei fora da minha carreira artística. Então, não posso julgar o que outras pessoas questionam. Trabalhar como diretora de cinema e artes ao vivo certamente me permitiu explorar meus próprios temas em um ritmo diferente. Isso me permite questionar tópicos que parecem relevantes no momento e construir com base nas experiências ao meu redor.

Vitor: Quando você questiona quantas portas um filme pode ter e quantas delas você quer abrir, você questiona quanto da sua vida você quer dividir com o espectador?

Julie: Essa frase para o filme e para ‘Das Retirée’ é, antes de tudo, uma metáfora para mim e meu pai sobre até que ponto podemos conversar entre nós e quantos tópicos existem, mas não são expressos verbalmente. Algumas coisas não podem ser discutidas, mas são abordadas nas entrelinhas. Talvez também não seja necessário falar tudo em voz alta. E se virmos essas portas como portas para a plateia, talvez eles possam perceber quais portas sentem que poderiam abrir ou prefeririam deixar fechadas. Fico feliz por ter pedido a meu pai que participasse da realização deste filme, mesmo que trabalhar com ele aos 83 anos não tenha sido a tarefa mais fácil. Combinar nossas duas gerações diferentes também oferece muitas portas diferentes que podem não ser iguais, mas acredito que todas são válidas para estar lado a lado.

Vitor: Enquanto você e seu pai criam um modelo representando o Retireé, uma parte significativa do seu filme se desenrola dentro da imaginação do espectador. Qual é a sua visão deste lugar e o que você acredita que ele representa para você?

Julie: Compartilho esse anseio por um lugar tranquilo com meu pai, embora sinta que minha geração tenha mais facilidade em formular esse desejo, enquanto a geração do meu pai não reservava esse espaço para si devido ao papel masculino de provedor e a uma ética de trabalho diferente. Em algum momento do processo de criação de ‘Das Retirée’, senti a necessidade de incorporar minha própria visão à linguagem visual do filme. Assim, criei esses cenários para o modelo em escala menor e para o bolo. Minha ideia é uma casa lúdica cheia de possibilidades e livros, não se precisa de muito além do sol e da presença de familiares próximos, amigos e animais. As vezes as visões do meu pai e as minhas tinham sobreposições e as vezes não tinham, mas eu gostava disso. Não há uma definição única de como esse lugar poderia ser.

Vitor: Embora seu filme não aborde diretamente a morte, há momentos em que tanto você quanto seu pai parecem flertar com esses pensamentos. Você acredita que isso é uma das razões pelas quais trouxe esse projeto à vida? É uma maneira de garantir que o trabalho de seu pai continue a prosperar mesmo após sua morte?

Julie: Sinto o filme mais como uma conversa com meu pai no final de sua vida e sua maneira de ver o mundo que continua dentro de mim, e por meio do filme, isso é compartilhado com o público. Durante as filmagens, ficou claro que meu pai estava se tornando mais frágil e que, de alguma forma, o projeto o mantinha seguindo em frente. No entanto, em certo momento, tornou-se quase cansativo demais para ele. Decidi interromper as filmagens quando percebi que ele havia atingido um momento muito privado para ser compartilhado com outras pessoas e até mesmo com minha família. Meu pai assistiu ao filme finalizado três vezes antes de realmente entendê-lo, e esse foi um momento muito especial para mim. Ele tinha uma personalidade obstinada e sua própria visão do filme, mas quando finalmente o compreendeu, ficou profundamente tocado.

Vitor: Um dos aspectos que mais me impressionou em seu trabalho é que muitos diretores de documentários parecem ter medo de mostrar o “lado feio” da sua história, enquanto você, por outro lado, parece abraçar todas as imperfeições em seu relacionamento com seu pai. Essa decisão de revelar esse lado de si mesma foi uma escolha fácil?

Julie: Obrigado por essa pergunta. Foi uma escolha muito difícil e um progresso importante na realização deste filme. Sinto que ser alemã não ajudou a me abrir para essa fragilidade, mas entendi cada vez mais, com a ajuda e colaboração do meu editor italiano Luca Mattei e dos meus produtores Daan Milius e Steven Dhoedt, que isso era necessário. Não me resguardar demais, mostrar as camadas dos nossos relacionamentos e que a família nunca é fácil. O filme se torna mais rico quando se tenta mostrar todos os lados dele. Muitas vezes, tive que fazer uma separação entre eu como filha e eu como diretora do filme, e essas duas funções nem sempre concordavam, mas eram um diálogo interessante que frequentemente acontecia também inconscientemente.

Vitor: Não tenho certeza se isso aconteceu devido à minha obsessão pela Chantal Akerman, mas ao assistir ao seu filme, não pude deixar de pensar em “No Home Movie”. Existem influências de outros diretores em seu trabalho?

Julie: Sinto que meu trabalho é influenciado por muitas coisas e pessoas, especialmente minha formação em teatro. Isso inclui todos os artistas ao meu redor em minha vida cotidiana, amigos e colegas que produzem filmes e performances, meu coletivo cinematográfico com a cineasta Ingel Vaikla, a turma de cinema que estou lecionando e também a literatura e a psicologia. Os dois países em que moro e as quatro línguas que falo, leio e ouço todos os dias também exercem influência significativa. Confesso que até agora não havia assistido ‘No Home Movie’ inteiramente – mas ‘Jeanne Dielman’ é um filme que eu gosto muito.

Vitor: Você acredita que seu tempo no teatro influenciou de alguma forma seu trabalho no cinema?

Julie: Muito. Fui estudar direção em uma escola de teatro em Berlim, pois na época era muito jovem para a escola de cinema. Também compreendi que as escolas de cinema ensinam mais conhecimentos técnicos, mas eu queria trabalhar com pessoas e narrativas. O teatro e a performance artística oferecem o espaço para ensaiar, improvisar, descobrir coisas em colaboração e com fragilidade. Estou tentando trazer esse espaço para o meu trabalho cinematográfico, pois sempre defino regras performativas para a câmera e as pessoas diante dela. Adoro como ambas as disciplinas podem influenciar e, às vezes, provocar uma à outra.

Vitor: Agora que você concluiu este projeto profundamente pessoal, você planeja continuar trabalhando no campo do cinema não-ficcional?

Julie: No momento, sinto-me muito atraída pelo espaço cinematográfico e certamente continuarei a explorá-lo.


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