San Sebastian 2023 – The Human Surge 3

Ao longo de sua carreira, o diretor argentino Eduardo Williams tem se destacado como um dos cineastas mais singulares no cenário do cinema experimental contemporâneo. Através de técnicas de filmagem que desafiam os padrões convencionais aos quais estamos acostumados, Williams constrói uma linguagem autoral verdadeiramente distinto. Em seu primeiro longa-metragem intitulado “El auge del humano” (ou “The Human Surge”), Williams conquistou o Leopardo de Ouro na seleção Cineastas do Presente do Festival de Locarno. No filme, o trabalho do diretor chama a atenção pela sua busca pelo realismo e imersão, alcançados por meio de longos planos-sequência que nos permitem adentrar profundamente na vida de três personagens diferentes. Sete anos após o primeiro filme, Williams decide realizar “The Human Surge 3”, uma sequência indireta ao primeiro filme.

Assim como em “The Human Surge,” Williams opta por retratar o cotidiano de pessoas em diferentes partes do mundo, desta vez seguindo um grupo de amigos em suas viagens pelo Sri Lanka, Taiwan e Peru. O diretor mais uma vez emprega uma câmera de 360 graus para explorar minuciosamente os cenários e os personagens que escolhe acompanhar. Apesar de ser uma sequência de “The Human Surge”, o trabalho de Williams evoca muito mais uma outra de suas obras. Em “Parsi,” lançado em 2019, a narrativa gira em torno da vida de uma mulher que decide mudar-se de um país para outro, enfrentando as complexas questões de identidade e pertencimento que acompanham tal transição. O filme destaca o deslocamento cultural por meio do poema que permeia seus mais de vinte minutos de duração, realçando quão desafiador é o processo de se encontrar em meio a um povo e a uma cultura completamente diferentes de tudo que você conhecia anteriormente. Essas questões de identidade são repetidas novamente em “The Human Surge 3”, onde o diretor decide mostrar quão impróprio um grupo social pode se sentir diante um mundo completamente oposto.

Mas o que faz de “The Human Surge 3” o melhor trabalho de Eduardo Williams e um dos melhores filmes do ano é a inovação visual que o diretor incorpora em sua narrativa. Este filme se destaca como um dos projetos mais radicais e distintos dos últimos tempos, sendo difícil até imaginar outro trabalho ou diretor capaz de realizar uma obra tão única e impactante. O que distingue “The Human Surge 3” de outros trabalhos experimentais igualmente inventivos é a escala que Williams consegue alcançar ao abordar questões estritamente humanas. Ele consegue encapsular todo o sentimento de deslocamento que experimentamos ao longo de nossas vidas, proporcionando uma visão única sobre esse tipo de sensação. É uma experiência quase extracorpórea que evoca o sentimento máximo de adaptação. Williams não se preocupa em nos fazer encolher ou expandir, tudo o que ele deseja é que nos ajustemos. Há uma cena em que, completamente distorcido por efeitos visuais, o corpo que segura a câmera 360º parece desaparecer diante de um grupo de pessoas. É como se ele simplesmente não estivesse lá, evocando o estado de invisibilidades, de não ser notado por ninguém. Williams compreende profundamente o que é se sentir assim, e talvez seja isso que faça com que seu trabalho seja tão admirável.


VEJA TAMBÉM