O processo de captura de imagem, desde os primórdios de sua invenção, tem como objetivo principal a persistência do momento. A ideia de tornar aquilo que é efêmero em algo que possa atravessar o tempo é, por si só, fascinante, mas o cinema parece ter dado um significado mais atrativo para esse pensamento. Pode-se afirmar que uma das motivações do cinema é proporcionar que uma obra cinematográfica, seja ela fictícia ou documental, seja capaz de evocar o mesmo impacto da captura real de um evento. É passível de debate a afirmação de que um filme pode explicar um evento com a mesma eficácia que uma representação histórica do mesmo momento, porém é essa divergência de opinião que torna toda a questão mais interessante. Dentro desse próprio argumento, é possível debater sobre a eficiência que existe em abordagens mais realistas ou mais ficcionais entre as mesmas narrativas. O que importa é que, dentro do âmbito cinematográfico, existem várias maneiras de contar ou representar uma história. O trabalho de Laura Ferrás em “The Permanent Picture” transita entre a artificialidade e o naturalismo, especialmente nos momentos mais influenciados por diálogos. No entanto, o que aproxima o estilo da diretora do movimento naturalista é a relevância social presente na forma como ela emprega não-atores locais como representações físicas da história de uma comunidade inteira.
Um dos elementos mais proeminentes do “cinema naturalista” é a utilização de não-atores em suas obras, uma abordagem que tem sido empregada como recurso por vários diretores ao longo da história. Andy Warhol, uma figura central no movimento artístico dos Estados Unidos, elevou a socialite e modelo Edie Sedgwick ao status de uma das principais estrelas do cinema avant-garde americano. Sedgwick, embora não possuísse a formação de uma atriz convencional, assumiu papéis de destaque em filmes como “Poor Little Rich Girl” e “Vinyl”. Enquanto em “Poor Little Rich Girl” ela atuava através da sua própria persona, em “Vinyl”, adaptação livre de “Laranja Mecânica”, ela já demonstrava um pouco mais seu desempenho como uma atriz relativamente formal. Robert Bresson, um dos principais expoentes do cinema europeu, é uma das maiores referências quando se trata de direção de não-atores. O conselho que ele dava a seus ‘intérpretes’ era: “não pense no que está dizendo, não pense no que está fazendo”. Para ele, as emoções transmitidas por seus personagens não deveriam ser calculadas, mas sim genuinamente sentidas. Talvez mais próximo ao trabalho de Laura Ferrés em “The Permanent Picture”, “Salt of the Earth” (1954), de Herbert J. Biberman, utilizou não-atores regionais para representar pessoas comuns da região do Novo México, nos Estados Unidos. Embora a questão política do filme de Ferrés não seja tão urgente quanto a de Biberman, afinal, o filme representava a luta trabalhista de mineiros mexicanos durante o período de caça às bruxas do Macarthismo, a maneira como ambos os diretores utilizaram a sinceridade de personagens interpretados por pessoas comuns acrescenta um elemento adicional às suas narrativas; a importância da autenticidade.
Ferrás disse que o seu trabalho foi profundamente inspirado pelas canções e histórias dos trabalhadores da Espanha pós guerra. Essa é uma questão relevante visto que, no centro da história de seu filme, o tempo e o passado emergem como ferramentas humanas fundamentais. “The Permanent Picture”, que começa com imagens do passado, mostram Antonia (Saraida Llamas) dando a luz a uma criança e, logo depois, desaparecendo da vida de sua família. Não se sabe ao certo o motivo de seu desaparecimento, tudo que sabemos sobre aqueles personagens parecem limitado àquilo que nos é imposto pelas imagens de Ferrás. Essas imagens, fotografadas por Agnès Piqué Corbera, evocam uma vida obsoleta, completamente perdida através do tempo. Anos se passaram e agora acompanhamos Carmen (María), uma diretora de elenco em busca de alguém que possa representar a face humilde da sociedade para uma campanha política. É nessa busca que ela encontra Antonia (agora adulta, interpretada por Rosario Ortega). As duas começam a criar um laço de amizade, mas logo descobrem que o tempo não muda todas as coisas.
Essencialmente, existem dois filmes dentro de “The Permanent Picture”. De um lado temos uma representação afiada da política moderna, onde os desfavorecidos são usados como ferramenta de angariar votos. Em uma cena onde a equipe de marketing que Carmen faz parte discute a estratégia que irão utilizar na sua campanha política, frases de impacto e slogans são lançados como possíveis ferramentas de propaganda, que, nas palavras de Carmen, encapsulam um “esquerdismo-não-praticante”. Em dado momento, o candidato verbaliza o que todos estão pensando: eles deveriam procurar por uma “imagem honrada da miséria”. Imagens geradas por inteligência artificial ilustram essa visão. É nessa abordagem sarcástica que o filme atinge o ápice de sua narrativa. Mas o seu outro lado apresenta uma versão muito mais convencional para aquela história. O aspecto mais humano do trabalho de Ferrés se torna evidente quando o filme opta por um tom que equilibra o melodrama com uma narrativa bem-humorada de autodescoberta.
A questão é que, de maneira objetiva, o filme perde muito de sua capacidade quando decide focar na suposta simplicidade da relação de Carmen e Antonia. Não é que a história contada não seja atraente, visto que Ferrás sabe lidar bem com os diversos tons da sua narrativa. Porém, a abordagem política parecia uma possibilidade muito mais expressiva para essa história. Para um filme que deveria lidar mais com o próprio passado, a diretora parece se interessar mais pela humanidade de uma relação temporária no presente. É nítido que a história toma um novo significado após um certo ponto de virada narrativo, mas isso não faz com que os acontecimentos triviais que o antecederam se tornem necessariamente significativos. Talvez não devêssemos avaliar um filme pelo que ele não é, mas sim pelo que já foi concretizado. No entanto, é difícil não considerar o potencial que o trabalho de Ferrás teria alcançado caso tivesse seguido a trajetória delineada pelos seus trinta minutos iniciais.

